Vítima de bala perdida, luta por indenização há 20 anos

Camila Magalhães Lima tinha só 12 anos quando uma bala perdida mudou sua vida pra sempre. Ela estava na Avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio, quando seguranças de três lojas da região reagiram a um assalto uma joalheria, iniciando um confronto com os ladrões. A estudante, que voltava da escola para casa, foi atingida no pescoço por um projétil que ficou alojado na coluna, deixando-a tetraplégica. Publicada na primeira página do GLOBO, a foto da menina no chão esperando socorro ajudou a gerar comoção em torno do caso, que se tornou emblemático da violência na cidade. Entretanto, vinte anos depois da tragédia, Camila e sua família ainda lutam para receber uma indenização.

De início, a menina perdeu os movimentos nos braços e nas pernas. Por meio de vários tratamentos, ela recuperou a locomoção dos membros superiores. Sua trajetória deixa claro que as limitações impostas pelo tiro não a abateram. Camila se formou em Ciências Sociais na PUC-Rio, com bolsa de estudos integral, e teve diferentes empregos. Hoje, é servidora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ela também se tornou atleta de natação adaptada no Tijuca Tênis Clube e, no mês passado, conquistou duas medalhas no Circuito Loterias Caixa, em agosto: ouro nos 50m livres e bronze nos 50m costas. Segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), este é o mais importante campeonato do país.

– Eu já nadava antes de ser baleada. Sempre gostei de esportes. Hoje, além de ajudar muito na recuperação, as competições de natação são é um jeito de eu não me entediar com o tratamento. Ninguém aguenta ficar só puxando peso a vida toda. Não é legal estar numa carreira de rodas, mas a gente se adapta. A vida precisa seguir em frente – reflete Camila, hoje com 32 anos, em entrevista ao Blog do Acervo. – Eu estava saindo do colégio sozinha pela primeira vez, andando na rua com uma amiga, ao meio-dia, quando aquilo aconteceu.

De acordo com reportagens da época, a menina ficou com lesões graves na sexta e na sétima vértebras da coluna cervical. Ela conta que, no início, passou um mês internada no Hospital Municipal Salgado Filho, na Tijuca, e depois um ano na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). Além disso, Camila terá que fazer fisioterapia para sempre. Segundo ela, foi por meio de campanhas de financiamento, doações de empresários e recursos judiciais conquistados por seu advogado que ela e sua família conseguiram arcar com os custos médicos.

A família processou os três estabelecimentos pela conduta dos seguranças. Em 2016, o Tribunal de Justiça decidiu em favor dela, mas as empresas recorreram. Em maio deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a decisão de primeira instância. O relator do caso, ministro Marco Aurélio Bellize, reiterou que “a reação imprudente e intempestiva” dos funcionários era suficiente para a condenação, uma vez que, “ao optarem pela defesa do patrimônio do comércio local, expuseram diversas pessoas a situação de grande risco”. Segundo a determinação da Justiça, Camila vai receber R$ 900 mil em indenizações, além de pensão vitalícia no valor de um salário mínimo. Mas a servidora pública ainda precisa esperar o julgamento dos embargos de declaração impetrados por uma das empresas no próprio STJ.

– Os seguranças não poderiam estar armados. No início, algumas lojas negaram que estivessem, mas a própria juíza contestou. Como houve o tiroteio então? – diz a socióloga, lamentando tanta demora para receber a indenização. – Esse dinheiro é essencial, não só para minha recuperação mas também para minha qualidade de vida. Além de pagar os tratamentos, preciso de diversas adaptações para acessibilidade. É cansativo, mas não posso desistir, até para que não aconteça com outras pessoas.

William Helal Filho
Jornalista

Foto do dia do tiroteio