‘The Killing’ é umas das séries mais assistidas na Netflix

Quando comecei a assistir The Killing, eu estava entediada e sozinha em casa. Depois de rodar pelo Netflix, decidi assistir um ou dois episódios da série, sem muito comprometimento. Porém, eu só consegui sair de frente da TV uns oito episódios depois. The Killing é uma daquelas séries que sabem garantir uma dose de curiosidade, deixando um gancho, uma inquietação que só será respondida no próximo episódio. Recomendo cuidado, pode ser uma experiência muito viciante.

Baseado no seriado dinamarquês Forbydrelsen, a versão americana foi criada por Veena Sud e por duas vezes foi ressuscitada pelos fãs. A série, inicialmente exibida pela AMC, seria cancelada após as duas primeiras temporadas. Lembro que no mesmo período a AMC exibia séries de maior audiência e prestígio como The Walking Dead e Breaking Bad. Apesar de ser uma ótima série, The Killing permanecia à sombra destas outras produções. A terceira temporada, enfim, foi acordada entre Fox Studios e Netflix, sendo exibida pela AMC e Netflix. Entretanto, ao fim da terceira temporada, a AMC decidiu cancelar de vez o projeto, que foi resgatado para uma última temporada produzida e transmitida pelo Netflix.

The Killing - Linden - Holder - 02

Somos apresentados a uma Seattle dessaturada e chuvosa, quase em concordância com o clima tenso que ronda uma investigação de homicídio. Diferente de várias séries de investigação, em The Killing, os casos não se resolvem em apenas um episódio. Tomemos como exemplo o primeiro caso que acompanhamos (que é o assassinato da adolescente Rosie Larsen), são duas temporadas inteiras nesta investigação. Os agentes Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman), nossos personagens principais, seguem várias linhas de investigação e muitas vezes chegam a becos sem saída. Eles também não possuem super tecnologia à disposição, nem laboratórios de ponta. E passam longe de serem pessoas geniais. Não espere respostas mirabolantes tiradas da cartola ou muito discurso filosófico. Não espere gente bem vestida, nem maquiada, as pessoas acordam descabeladas, os investigadores se vestem mal, ficam de mau humor e etc. O que torna tudo muito mais parecido com uma investigação real e com uma representação mais palpável da realidade do que nos habituamos a ver em outras séries do gênero.

Eu acredito que o maior diferencial de The Killing seja um roteiro muito bem amarrado e generoso com todos os personagens. Não existe personagem no escuro. Todos são explorados e bem desenvolvidos, permitindo que criemos nossas próprias teorias sobre quem é o assassino e o porquê, mas também nos fazendo torcer, por exemplo, para que a família da vítima consiga se recuperar do trauma. Portanto, é também um drama muito bem escrito. Neste primeiro caso, acompanhamos o dia a dia da família da vítima e nos emocionamos com cada momento do luto: o quarto vazio, a voz na secretária eletrônica, o prato sobrando na mesa. Em tudo está presente a dolorosa lembrança dos dias felizes. Acho que The Killing foi a série que assisti que mais respeitou a dor do luto.

Também observamos Linden e Holder desenvolverem seu relacionamento. Linden é a veterana na divisão de homicídios e Holder foi transferido da divisão de narcóticos. Os dois são personagens interessantes. Em sua vida particular, Linden foi uma criança abandonada, criada em vários lares adotivos. Agora, ela é a mãe solteira de um adolescente. Frequentemente, seu trabalho fica à frente de sua própria família e saúde. Holder é um ex-usuário de metanfetamina, tentando refazer seus laços familiares com a irmã e sobrinho. Ambos têm suas próprias cruzes para carregar, o que interfere em seus desempenhos como investigadores. Eles cometem erros e precisam lidar com isso, sabendo que seus erros afetam muitas pessoas. Holder é falastrão e engraçado e Linden é calma e silenciosa. Mas não se deixem enganar, Holder é um investigador competente e o silêncio de Linden nos faz entrar dentro dos seus pensamentos, acompanhando o seu raciocínio.

The Killing - Sarah - Jack

Vale a pena citar que é revigorante ver a mulher como a líder da dupla. É Linden quem está treinando Holder, ela dirige, ela lidera a investigação, ela é que é cobrada. Holder até tem um bordão “You my ride, Linden”, que expressa não só o fato de que ela está na liderança, como também que ele confia nela. Linden tem dramas pessoais muito característicos de mulheres. Ela é questionada o tempo todo em sua capacidade de ser uma boa mãe, já que se dedica enormemente ao trabalho. Quantos homens são ameaçados de perder seus filhos porque trabalham muito? Em um momento da série, Linden pergunta ao seu chefe como conseguiu conciliar a carreira e a criação dos filhos, ele responde: Eu tenho uma esposa. Linden, sarcástica, diz que precisa de uma dessas. Evidenciando uma das nuances do machismo na vida das mulheres trabalhadoras.

Por fim, ressalto as performances maravilhosas do elenco de apoio, especialmente na primeira e segunda temporada. Especialmente Michelle Forbes, que entrega uma mãe devastada pelo luto com brilhantismo. É verdade que toda a confusão da produção da série afetou sua qualidade. Entretanto, mesmo em seus piores momentos, The Killing ainda é muito superior à maior parte dos seriados policiais e investigativos. Por isso, The Killing vale cada minuto.

Gizelli Sousa (Blogueira)
Arquiteta, feminista, prefere uma noite de maratona de séries do que sair para a balada.