Ela morreu no meu lugar

Sou filho único. Cresci tendo com a minha mãe, Nieves Guillen Montenegro, uma relação de muita cumplicidade, respeito e sintonia. Na manhã do dia 15 de julho de 2015, meu telefone tocou. Era o vizinho dela me avisando que estava preocupado, pois tinha ido levar-lhe um recado, mas ninguém atendia a porta. Pedi que ele insistisse. Talvez ela estivesse dormindo ou algo do tipo. Não devia ser nada demais. O estado de saúde dela era perfeito. Continuei trabalhando, mas, minutos depois, o telefone voltou a tocar. Minha mãe estava morta. Seu corpo foi encontrado sobre a cama, ainda com a corda que fora utilizada para estrangulá-la presa ao pescoço. Ela, uma mulher de 78 anos, havia sido espancada e violentada antes de ser assassinada.

Os criminosos foram embora sem roubar nada. Tudo estava intacto. Eles foram à casa de minha mãe com uma missão. Eram pistoleiros a soldo do narcotráfico ou de alguns políticos. O que mais dói é saber que minha mãe morreu em consequência da minha profissão. Ela morreu no meu lugar. O jornalismo me deu tudo, mas foi por causa do jornalismo que perdi o que era mais precioso para mim. Três meses antes do assassinato dela, escrevi uma reportagem que causou muito desconforto às autoridades bolivianas. Nessa matéria, eu trouxe a público as revelações do coronel Germán Cardona Álvarez, do Exército boliviano. Ele declarou que aviões militares partiam do Chapare, uma região cocaleira e base política do presidente Evo Morales, com destino à Venezuela repletos de cocaína. Segundo o militar, alguns carregamentos eram inspecionados pessoalmente pelo presidente. Cardona fugiu para a Espanha e passou a ser execrado em nosso país. A repercussão global de suas declarações criou um constrangimento para Morales. Não tenho dúvidas de que Cardona sofreu muita pressão. Um dia depois do assassinato de minha mãe, o coronel voltou atrás. Desmentiu a si mesmo e pediu perdão ao governo e aos superiores. Ele tomou essa decisão para proteger a si e sua família. A morte de minha mãe foi um recado não só para mim, mas também para o coronel Cardona.

“Não perco as esperanças. Sei quem foram os executores do assassinato. Falta ainda descobrir quem foram os mandantes. Devo a verdade a minha mãe”

Depois, um homem foi preso pelo crime, mas não passava de um bode expiatório. Era evidente que as autoridades queriam dar tudo por encerrado. Como minha mãe foi morta em represália ao meu trabalho de jornalista, só me restou o jornalismo como instrumento para dar uma resposta a ela. Passei a investigar o caso. Cheguei aos nomes dos possíveis assassinos. Entreguei todas as informações nas mãos da polícia, mas nada foi feito. Não seguiram as pistas que dei, ignoraram os indícios e trataram o crime como um caso encerrado. Com isso, fui obrigado a levar o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Por mais que eu tente lembrar dos momentos felizes com minha mãe, sofro pelo que vi quando cheguei à casa dela naquela manhã. Essa imagem me acompanhae às vezes nem consigo dormir. Já se passaram quase dois anos e eu continuo perseguindo a Justiça. Não perco as esperanças. Sei quem foram os executores do assassinato. Falta ainda descobrir quem foram os mandantes. Devo a verdade a minha mãe. A solidão de quem busca esclarecer um caso como este em um país como a Bolívia é algo extremamente complexo e perigoso. Não vou acusar essa ou aquela autoridade de envolvimento com o estupro, espancamento e morte de uma idosa. Somente uma investigação honesta e a prisão dos pistoleiros seria capaz de apontar seus patrões. Mas isso o governo da Bolívia se negou a fazer. Depois que o coronel Cardona negou as acusações feitas contra seus superiores e contra o presidente, tudo parece ter voltado ao normal para eles. Mas a Bolívia não vive uma situação normal. A produção e a venda de cocaína crescem todos os dias e os traficantes estão ficando ainda mais fortes e causando danos dentro e fora de meu país.

Depoimento colhido por Leonardo Coutinho
Foto por Fuad Landívar

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