Editorial: ‘Minha voz será sua voz’

Lembro quando eu passeava pelo Largo do Paissandu, em São Paulo, e contemplava, admirada, a cena da mãe de leite amamentando, eternizada em uma estátua. Seios à mostra, criança deleitando-se, literalmente, com o alimento que recebia daquela a quem estaria a responsabilidade pelo cuidar e criar a criança. É uma imagem difícil de esquecer.
Daqueles tempos em que a ingenuidade, inocência e a total falta de malícia navegavam em volume e com facilidade pelos meus olhos, restam algumas outras imagens idílicas. Mães amamentando suas crias, com pudor e prazer, protegiam criança e seios dos olhos mais ousados.
Bons tempos. Nem estão tão distantes assim, no tempo cronos, aquele que o calendário registra.
Enquanto essas lembranças evocam doces memórias, não consigo parar de pensar nesse indivíduo (não consigo qualificar de outra forma, infelizmente, mas pouparei o leitor de palavras que o ofendam) que por mais de 15, 16, 17 vezes fez uso de sua genitália para humilhar mulheres que estavam próximas. Apenas porque estavam assim, próximas. Não estavam disponíveis, não sugeriram concordância com o sexo, não estavam próximas a zonas de meretrício (nem vou me preocupar se de baixo ou alto meretrício… não cabe no momento). E ainda que estivessem, não se encontravam em seus pontos, como são chamados os locais para onde se dirigem homens que, na impossibilidade de ter um contato físico com alguém de seu relacionamento, buscam no sexo fácil e rápido um alívio àquele momento de excitação.
É triste, é muito triste. Não encontrei ainda palavras que definam o que penso dessas moças que carregarão essa marca até o fim da vida. Mesmo que superem, enquanto houver sinapse, os neurônios evocarão a lembrança. Coloco-me no lugar delas por ter passado por uma situação muito de longe semelhante. Escapei ilesa.
Pior ainda é o que penso a respeito desse indivíduo que lança mão de um recurso tão vil, tão baixo, tão… inqualificável quanto a doença mental. Não passará nos exames psiquiátricos ou assemelhados. Não tem doença mental. Ainda que se diagnostique esquizofrenia, não é o caso.
Ouvir vozes, prezado leitor, todos nós, independentemente de nossa condição mental, ouvimos. E a qual delas seguirmos, haverá consequências. Programas televisivos inundam a programação com “…ouvia vozes”. Ah, faça-me o favor. Quer ouvir vozes, pega um foninho de ouvido e deixa a população ao seu redor, ao seu derredor, à sua volta em paz.
Espanta-me, mais que tudo, o silêncio da sociedade. E o “Mexeu com uma, mexeu com todas”?
Minha voz será sua voz. Manifeste-se. Aguardo.

Ana Lúcia Sesso, Jornalista, São Paulo

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