E quando chega a velhice

Lembro-me das brincadeiras de infância, quando uma vizinha chamava a atenção de qualquer um de nós que estivesse envolvido com a diversão. Não importava a idade de quem estava falando. Era uma autoridade. Assim fomos criados. Não interessava se era o vizinho da frente ou da rua de trás. Na hora dos jogos o critério era respeitado por todos os participantes. Cuidado com os muros. Cuidado com as janelas. Cuidado onde havia algum idoso ou alguém doente.
Idoso não era bem o termo que se usava então. Era velho mesmo. Sem essa perseguição do politicamente correto ou de bullying ou fosse o que fosse. Para nós era velho. Mais de trinta anos de idade era uma eternidade. Não podíamos imaginar como a pessoa conseguiu viver tanto! Imagine. Aos trinta anos de idade ser chamado de velho.
O tempo passou para muitos de nós. Alguns não chegaram a me ver passar dos trinta, chegar aos quarenta, atingir a metade dos cinquenta. Não me sinto velha. Idosa? Nem pensar. Imagine. Nem tenho direito à gratuidade de condução, ainda. Percebo o caminhar dos dias. Lentamente. Olhando retrospectivamente fico espantada com quantos planos, sonhos, ideais ainda há pela frente. Adiante de mim, o futuro. Agora, o presente. O passado… vou talvez ser infectada pelo vírus quando perceber que chegou a velhice.

Ana Lúcia Sesso, Jornalista, São Paulo

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