Donald Trump: Um presidente incendiário

Ao mostrar-se tolerante com a violência neonazista, Trump acirra os ânimos e escandaliza políticos, militares e empresários americanos — e o resto do mundo.

De improviso, entre uma careta e outra, o presidente americano Donald Trump esparrama fagulhas que podem se transformar em incêndios catastróficos em lugares distantes do planeta. Nas últimas semanas, ele prometeu levar “fogo e fúria como o mundo jamais viu” à Coreia do Norte e ameaçou recorrer à opção militar contra a Venezuela. Mas foi na cidade de Charlottesville, que fica a apenas duas horas e meia de carro da Casa Branca, que as suas faíscas evoluíram para labaredas perigosas. Na sexta 11, 500 pessoas, praticamente só homens, acenderam tochas e carregaram bandeiras nazistas e dos estados confederados, que lutaram pela manutenção da escravidão na Guerra Civil americana (1861-1865). Elas protestavam contra a retirada da estátua de Robert E. Lee, um general confederado, e gritavam palavras de ordem repulsivas, como “judeus, vocês não vão nos substituir” e “a vida dos brancos importa”, em contraposição clara à vida dos negros. Foi a maior manifestação aberta de ódio racial em pelo menos uma década nos Estados Unidos. No dia seguinte, a coisa só piorou. O jovem James Fields Junior, de 20 anos, que participou do grupo racista Vanguard America, avançou com um carro cinza contra manifestantes antirracistas. Matou uma mulher, Heather Heyer, de 32 anos, e feriu dezenove pessoas.

Diante disso, Trump deu uma coletiva em que lamentavelmente culpou a violência “de vários lados”, estabelecendo uma falsa equivalência. Havia agressores e agredidos, mas o presidente preferiu ignorar essa distinção essencial. Com tamanha ambiguidade moral, deixando transparecer seu apoio à violência nazista, Trump causou uma onda de indignação, mas voltou atrás. Na segunda­-feira, leu mecanicamente uma mensagem no teleprompter. “O racismo é perverso. Todos aqueles que causam violência em seu nome são criminosos, incluindo os membros da KKK (sigla da Ku Klux Klan, organização racista), neonazistas, supremacistas brancos e qualquer outro grupo de ódio. São repugnantes e vão contra o que defendemos como americanos.” Parecia que o presidente tentava se redimir. Um dia depois, no entanto, sem teleprompter à sua frente, Trump voltou a ser Trump e relativizou a agressão racista: “Nem todas as pessoas eram neonazistas e supremacistas brancos. Essas pessoas estavam lá porque queriam protestar contra a retirada da estátua de Robert E. Lee”, afirmou. “Havia um grupo de um lado que era ruim e um grupo do outro lado que era muito violento”, afirmou o presidente. Empolgado consigo mesmo, chegou a cunhar uma palavra, alt-left (abreviação de “esquerda alternativa”), em contraposição ao termo alt-right (de “direita alternativa”), que designa, desde 2010, os bandos homofóbicos, antissemitas, misóginos e racistas que proliferaram com a ajuda da internet (veja o quadro na pág. ao lado). Trump, contudo, não foi capaz de nomear um único grupo da sua alt-left.

“Foi um divisor de águas. Ele perdeu qualquer chance de reivindicar alguma autoridade moral”, diz o antropólogo canadense Alex Khasnabish, da Universidade Mount Saint. No fim do dia, Trump foi elogiado por David Duke, ex-líder da KKK, grupo com uma infame história de violência racista, que exaltou sua “honestidade e coragem” em lidar com o tema. Tolerante com os supremacistas brancos, Trump foi rápido no gatilho para condenar sem ambiguidades morais o atentado na Espanha, na quinta 17: “Os Estados Unidos condenam o ataque terrorista em Barcelona. Sejam duros e fortes. Nós amamos vocês”. A única coisa que se esperava de Trump é que fosse igualmente claro na condenação dos militantes do neonazismo.

Grupos racistas são parte da história americana, mas estão circunscritos às bordas da sociedade. O evento em Charlottesville, que convocou membros de várias organizações em todo o território americano, conquistou relativamente poucos adeptos. Protegidos pela Primeira Emenda à Constituição, que garante total liberdade de expressão, eles podem tremular bandeiras com suásticas e xingar judeus e comunistas, mas sem violência. As ofensas contra os negros são implícitas. “Desde o movimento pelos direitos civis, nos anos 1960, o racismo contra negros tornou-­se profundamente impopular e associado a falhas morais. Muitos brancos incomodados com o mundo multicultural e multirracial possuem sentimentos racistas, mas não os expressam”, diz a antropóloga americana Sophie Bjork­-James, que estuda movimentos nacionalistas na Universidade Vanderbilt. Como palavras de ordem, o que se escuta são frases como “defender a minoria branca”, “limpeza étnica pacífica” e “criar um etno-Estado”. “Uma vez que se trata de comunidades on-line, seus membros podem se envolver anonimamente, sem se preocupar com possíveis danos à sua reputação”, diz o cientista político George Hawley, da Universidade do Alabama. Entre os sites que dão voz a essas correntes estava o direitista Breitbart News, que foi comandado por Steve Bannon após a morte de seu fundador, em 2012. Bannon, um feroz radical de direita, foi fundamental na campanha que levou Trump à Presidência, em 2016, execrando mexicanos e imigrantes. Como prêmio, ganhou o cargo de estrategista-­chefe de Trump. “Nosso sistema político terá um desafio inédito pela frente. É a primeira vez que os supremacistas brancos têm representantes dentro da Casa Branca”, diz o sociólogo americano Lawrence Rosenthal, diretor do Centro de Estudos da Direita na Universidade da Califórnia em Berkeley. Na sexta 18, Trump convidou Bannon a se retirar. Entre as possíveis causas da demissão não estava sua relação com supremacistas brancos. O presidente ficou irritado porque Bannon deu uma entrevista afirmando que uma guerra com a Coreia do Norte estava fora de questão, contradizendo o chefe.

Trump rompeu com uma tradição e, com isso, abriu uma ferida explosiva. Ocupantes da Casa Branca, republicanos e democratas, sempre condenaram a intolerância. Em 1981, o presidente Ronald Reagan, republicano como Trump, num discurso célebre, mandou uma mensagem direta aos racistas. “Vocês não estão no mesmo passo da nossa sociedade. Vocês querem violar o significado do sonho que é a América.” O democrata Barack Obama, filho de mãe branca do Kansas e pai negro do Quênia, foi eleito em 2008 sem usar a “carta racial”. Sua visão era a de um país pós-racial, em que a convivência suplantaria as disputas sobre a cor da pele. No sábado 12, Obama, reforçando sua posição histórica, publicou no Twitter trechos de uma frase do sul-africano Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem ou sua religião. Para odiarem, as pessoas precisam aprender, e, se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Foi um sucesso estrondoso. A mensagem foi curtida 4 milhões de vezes, um recorde histórico nessa rede social.

A atitude de Trump escandalizou políticos, militares e líderes empresariais americanos — e, também, o resto do mundo. Entre os empresários, houve uma debandada de membros de dois órgãos corporativos criados para auxiliar o presidente no planejamento de suas políticas. Em um comunicado, líderes empresariais declararam que “a intolerância, o racismo e a violência não têm lugar neste país e são uma afronta aos valores americanos básicos”. Trump, que sempre se apresentou como o suprassumo da “América empresarial”, anunciou também pelo Twitter que fecharia os dois conselhos. Nas Forças Armadas, dois militares de alta patente se manifestaram contra as declarações de Trump. Na quarta 16, o chefe do Exército, Mark Milley, tuitou: “O Exército não tolera o racismo, o extremismo ou o ódio em suas fileiras. Isso é contra os nossos valores e tudo o que nós defendemos desde 1775”. No Congresso, vários republicanos, do partido de Trump, criticaram sua posição. Paul Ryan, o porta-voz republicano da Câmara, postou no Twitter: “Devemos ser claros. A supremacia branca é repulsiva. A intolerância é contra tudo o que o nosso país deseja. Não pode haver ambiguidade moral”. O senador John McCain, prócer do republicanismo, também se pronunciou: “Não há equivalência moral entre racistas e americanos desafiando o ódio e a intolerância”. Os principais veículos de imprensa do mundo rechaçaram o presidente americano. Em suas capas, ele foi associado à cônica máscara branca da KKK e ao gesto de braço erguido do nazismo.

Receosas de que os racistas, sentindo-se fortalecidos, protestassem em outras cidades onde também há estátuas de confederados, oito prefeituras retiraram seus monumentos ou começaram a planejar removê-los. A maior parte deles foi erguida quando a escravidão já tinha sido abolida mas vigoravam leis municipais e estaduais de segregação racial, conhecidas como Jim Crow, que duraram até 1965. “Foi um período de supremacia branca muito forte. Havia linchamentos, e pessoas não podiam votar. Essas estátuas são políticas, muito mais do que históricas”, diz Eric Foner, professor de história da Universidade de Colúmbia. Com um presidente incapaz de guiar-se por uma bússola moral, muitos americanos hoje se sentem compelidos a agir por conta própria.

Com reportagem de Johanna Nublat e Luiza Queiroz

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544

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